A única constante no universo é a mudança.

Sans-serif

Aa

Serif

Aa

Font size

+ -

Line height

+ -
Light
Dark
Sepia

O Fantasma da Sicília – Festa do Cinema Italiano

Este filme italiano estreado no país de origem em 2017 e que chega agora, em fevereiro de 2019, à Festa do Cinema Italiano em Portugal, é baseado na história verídica e brutal de Giuseppe (Gaetano Fernandez), um miúdo de 12 anos, filho de um mafioso siciliano em programa de proteção de testemunhas, que foi raptado pelos antigos colegas de “profissão” do pai. A trama centra-se na relação que este tinha com a sua recente paixoneta Luna (Julia Jedlikowska) e na insistência desta, depois do desaparecimento do namorado, em lutar pelo seu resgate. 

Deambulando entre um filme de fantasia — com referências óbvias a mundos próximos de Guillermo Del Toro e o seu Labirinto do Fauno — e a dureza hiper-realista que a situação central impõe em certos momentos, a obra de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, na companhia do experiente diretor de fotografia Luca Bigazzi, parece por vezes perder a sua bússola e acabar por não ser nem carne, nem peixe. Pegue-se agora na cena inicial e constatamos que os jovens atores estão em autogestão nessa etapa da trama, notando-se a sua inexperiência na arte, o que nos força a pensar se estaremos perante um filme não só sobre a verde idade, mas verde em si mesmo. Aí, como o centro desencadeador do filme ainda não aconteceu, tememos que o registo se mantenha. Felizmente, quando o rapto se dá, as personagens e circunstâncias ganham força e parece que tudo começa a trabalhar, havendo no entanto, tal como já foi abordado, uma indecisão que torna O Fantasma da Sicília um deambular entre o místico e o drama devastador. O assunto, embora forte, acaba por ser curto, e várias vezes nos deparamos com cenas que têm tanto de belo, como de irrelevante para o avançar da narrativa: falamos sobretudo do onirismo em que Luna se refugia, por sentir que ninguém compreende a sua urgência e desespero (a própria família de Giuseppe parece ter desistido e conformar-se a um futuro traumático). Salvam-se algumas âncoras que permitem ter uma abrangência de visões e que fazem com que o filme não caia definitivamente na sua própria vertigem, como é o caso da relação que Luna mantém com o pai e a mãe (Vincenzo Amato e Sabine Timoteo), com o primeiro a ser um porto de abrigo, mas não mais que isso, e com a segunda a fazer quase papel de vilã (rígida, austera e sem espaço para esperanças vãs ou sonhos vagos), ou na amizade “unha e carne” com Loredana (Corinne Musallari), que parece ser a única que acompanha a loucura justificada da jovem protagonista. A situação do cativeiro de Giuseppe é dura de observar e o ator que é peça central, salva-se nas cenas em que é espelho do desespero em que se encontra, redimindo-se daquela sequência inicial não muito bem conseguida. No ouvido fica a banda sonora de Anton Spielman, que faz usos dos silêncios e dos momentos de tensão e gere-os de forma inteligente, acentuando-os ou diminuindo-os na medida certa e nas alturas ideais.

Podemos dizer que, no fundo, O Fantasma da Sicília é uma luta da inocência e da esperança da juventude contra o muro pragmático e intransigente dos adultos. É também uma fotografia negra de uma época que a ilha da Sicília espera não ver tão cedo, mas cuja sombra se vai manter para sempre. Valha-lhes o espírito de um Fantasma que condensa em si o melhor que podemos dar: um acreditar inabalável e puro num futuro risonho, no meio de um presente ou de um passado por vezes demasiado pesados.

João Pedro Eugénio

classificação: 3 estrelas