A única constante no universo é a mudança.

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E “Se esta Rua Falasse”? – rescaldo dos Óscares 2019

Barry Jenkins, depois de realizar o oscarizado Moonlight, adapta o romance homónimo do conceituado James Baldwin (no original If Beale Street Could Talk), voltando a abordar a temática da América Negra. O enredo centra-se na relação de Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), casal jovem adulto afro-americano e namorados desde sempre, que vêem a sua vida virada do avesso quando Fonny é injustamente acusado de uma violação. Já preso, vem a revelação que vai acelerar a urgência de se ver livre o quanto antes: Fonny e Tish vão ser pais.

Aplicando o mesmo dispositivo contemplativo e usando e abusando dos silêncios que privilegiam a observação de elementos sensoriais que vão para lá do diálogo – apenas rompidos por uma banda sonora exagerada – Jenkins tenta repetir o truque de Moonlight, ao mesmo tempo que aprofunda a sua reflexão sobre o aspeto de sobrevivência com que se revestem as rotinas dos habitantes dos guetos, em especial os negros de uma América que se manifestou e continua a manifestar-se intrinsecamente segregadora. As diferentes relações que as personagens centrais estabelecem com os outros que lhes são mais próximos, como é o caso dos pais de Tish (destacamos a brilhante Regina King, que venceu o Óscar de melhor atriz secundária, não menosprezando Colman Domingo) , dão algum espaço e ar para que possamos respirar aquilo que são as reações aos dois acontecimentos fulcrais, ao invés de vivermos meramente os acontecimentos na pele do casal – porque na verdade eles apenas vivem, não reagem. São os personagens secundários que fazem justamente a narrativa avançar e criar novas possibilidades e focos de esperança: tal como os pais de Tish, temos a sua irmã Ernestine (Teyonah Parris), que está em cima do caso nos tribunais e pressiona as instâncias ao seu dispor, com vista à defesa de Fony, ao contrário da família alienada de Fonny, onde apenas o pai se parece revestir de algum bom senso. Regressando à personagem de Regina King, a mãe Sharon, há uma micro-narrativa muito interessante, que nos faz acompanhá-la até Puerto Rico, para entrar em contacto com a vítima da violação que entretanto se exilou, na esperança de
agregar um testemunho que permitirá limpar definitivamente o cadastro de Fonny. É essa a medida do esforço de quem os rodeia, uma esperança inabalável e fé nos seus, que obviamente tem correspondência no amor que uns nutrem pelos outros. Talvez seja, afinal, esse o tema central: amor.

O amor do casal, o amor contra o ódio, o amor paternal e fraternal. Será isso suficiente para ultrapassar os obstáculos que insistente e propositadamente são colocados? Há uma cena em flashback que nos coloca perante Daniel (Brian Tyree Henry), um amigo de Fonny que se encontra com ele casualmente ainda antes do evento que despoleta toda a ação, e que lhe conta desesperançadamente a sua experiência na prisão. Arrepiamo-nos ao saber que será esse o mesmo destino de Fonny. Mas o que há-de ele fazer? Rebelar-se? Refugiar-se no amor, o tal amor que tudo salva? Como na vida real, não encontramos resposta no filme. Apenas podemos esperar o melhor.

João Pedro Eugénio

classificação: 4 estrelas