A única constante no universo é a mudança.

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Capitão ou Capitã Marvel?

Sinopse: Carol Dan…Vers (Brie Larson), uma guerreira Kree – que é uma das raças alienígenas do universo Marvel – sonha com algo recorrente. Nesse sonho aparenta estar ferida e vê a sua mentora Mar-Vell (Annette Bening) também ferida junto de uma nave despenhada, antes de se dar um ataque mortífero por parte de uma figura ameaçadora que tudo indica ser um Skrull (outra raça cósmica da Marvel, eterna rival dos Kree). Quando ela é destacada para uma equipa de elite dos Kree liderada por Yon-Rogg (Jude Law), para resgatar um dos seus soldados de uma emboscada Skrull, ela vê a oportunidade perfeita para perceber melhor o seu passado que lhe surge em memória difusas. No meio da disputa acaba por se ver raptada pelos Skrull e pelo seu general Talos (Ben Mendelsohn) que se deslocam para a… Terra, onde aparentemente há uma fonte de poder disputada e que, porventura, lhe dará a resposta que há tanto anseia. Será aquela que está à espera? Será tudo o que aparenta ser?

Crítica: Quem conhece a personagem e a sua história ao longo das últimas décadas de banda desenhada da Marvel, rapidamente percebe que foram feitas algumas alterações substanciais e que alguns twists serão facilmente previstos. Mas! E este é um grande “mas”, as alterações parecem servir uma afirmação que pretende ser de empowerment feminino que não só é justo, como também é semi-pioneiro (Mulher-Maravilha já estreou há um par de anos) e equilibra a tabela dos destaques de géneros.

Para compreendermos um pouco melhor a que me refiro, recuemos à história de Captain Marvel nos comics originais. Captain Marvel, mais uma criação de Stan Lee em colaboração com Gene Colan nos anos 60, começou efetivamente por ser um oficial Kree, mas era um homem que se chamava… Mar-Vell. Primeiro invasor, depois respeitador dos habitantes do nosso planeta, acaba por se converter à nossa causa. Ora, numa das peripécias das suas histórias iniciais, somos apresentados a Carol Danvers, que é responsável pela segurança de um departamento secreto das forças armadas dos Estados Unidos. Ela própria acaba por ser vítima colateral de um ataque direcionado ao Captain Marvel original e ganha poderes que mais tarde a tornam na Miss Marvel. Já como Miss Marvel e já nos anos 70, Carol Danvers muda de profissão para editora de um suplemento do Daily Bugle dedicado às mulheres. Ora podemos achar isto tudo muito corriqueiroe banal, mas relembro que estas aventuras se passavam nos anos 60 e 70, onde mesmo num país de vanguarda como os EUA, ainda poucos cargos de chefia eram atribuídos a mulheres e Carol Danvers consegue dois deles, além de se tornar uma super-heroína com poderes bastante para além da média dos super-heróis da Casa das Ideias. Já só em 2012, com Kelly Sue DeConnick como escriba, ela se torna definitivamente a Captain Marvel (Capitão Marvel? Capitã Marvel? Interessa realmente?). Isto tudo para explicar que já na sua génese a personagem de Carol Danvers e depois os seus alter-egos super-heróicos tiveram o condão de não a tornar submissa a ninguém e apresentá-la como dos super-heróis mais poderosos. Agora, com o filme a estrear finalmente em 2019, não faria sentido que a sua tutora fosse um tutor (como nos comics originais), visto que seria um
passo atrás no statement de que… as mulheres não precisam efetivamente dos homens para resolver os seus ou quaisquer outros problemas. São no entanto géneros complementares, como certamente vamos ver em Endgame (ou melhor dizendo, o género interessa?).

É um filme sobretudo equilibrado, que não cai em nenhuma das armadilhas que os trolls estariam dispostos amontar, entretém, coadjuva-se de personagens secundários que funcionam como comic reliefs, como o Nick Fury (um rejuvenescido Samuel L. Jackson) ainda com os dois olhos intactos e sobretudo um gatinho “inofensivo” chamado Goose (uma dupla improvável de best buddies). Não
há aqui interesses amorosos, porque não precisam de existir, mas há uma elo inquebrável de amizade que junta Danvers a Maria Rambeau (Lashana Lynch), pena que a química seja inexistente e os diálogos pareçam caídos do céu (no pun intended). Além da questão filosófica moral e social, o filme junta algumas pontas que percebemos que precisavam ser ligadas e deixa
algumas pistas que nos deixam com água na boca. Há uma sequência final em que Carol Denvers sozinha rebenta completamente com uma nave e põe os passageiros das outras naves circundantes rapidamente em fuga… Isso é indicativo de algo: que o Thanos vai precisar daquela manopla intacta se quer ter alguma hipótese contra a nova menina bonita da licença. Será ela a
vingar-nos e a compensar-nos por aquele final devastador de Guerra Infinita? Falta menos de um mês para sabermos.

Classificação: 4 estrelas

João Pedro Eugénio