A única constante no universo é a mudança.

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O Deus da Carnificina (ou a utopia familiar)

Diz que é uma comédia negra de maus costumes esta peça que Yasmina Reza escreveu e que foi diversas vezes premiada. Diz que é um espectáculo que pretende mostrar a natureza humana como ela é através da ironia e do sarcasmo. Diz que é uma tragédia e que provoca risos. Sim, faz rir e muito.  
Verónica (Patrícia Tavares) e Miguel (Jorge Mourato), os pais do Duarte. ©Matilde Alçada Photography
Afinal, o que se passou?!
Dois putos a defenderem a honra pessoal, um vencedor e outro de beiço rachado e ego ferido. Coisa normal, que desde a Pré-História defender-se o território e reputação, literalmente, de unhas e dentes. Sabem vocês, sabemos nós, esqueceram-se eles. Ou não. Os pais do derrotado assumiram as dores do filho e querem tirar satisfações, por isso convidam os outros até sua casa para resolver “civilizadamente” a situação que não é deles nem lhes compete resolver. 
 
E se aos onze anos os rapazes mostraram mais sabedoria e coragem, estes quatro adultos revelam aquilo que a sociedade valoriza: a importância da imagem, a concepção moralista do mundo e das pessoas, o estatuto social e amor ao dinheiro, o papel tradicional dos géneros. 
Afonso (Diogo Infante) e Bernardete (Rita Salema), os pais de Bernardo. ©Matilde Alçada Photography
O Deus da Carnificina é a conversa típica que ouvimos sair da boca de tantas pessoas, muitas delas da nossa própria família (e, se calhar, até de nós mesmos) e que nos assusta, porque está carregada de hipocrisia e de preconceitos. Sim, é uma tragédia.
A família perfeita é, também e afinal, uma utopia. Talvez seja esta a mensagem que Yasmina nos deixa.
 
O Deus da Carnificina conquistou vários prémios internacionais e tem sido produzida nos palcos de muitos países, sempre com grande sucesso. Em Portugal, está em cena no Teatro da Trindade até ao dia 29 de Abril. A encenação é da responsabilidade de Diogo Infante que também actua em palco ao lado de Patrícia Tavares, Rita Salema e Jorge Mourato. Nota especial ao cenário da Catarina Amaro.
«O Deus da Carnificina é uma tragédia cómica ou uma comédia trágica se preferirem, onde a natureza humana e toda a sua evolução social, intelectual e psicológica se desmorona quando impulsos primários e básicos são despoletados por uma discussão parental. Nada nos tira do sério ou potencia o nosso lado animalesco e protector como uma investida contra os nossos filhos.»  Diogo Infante
Capa © Carlos Ramos 
Todas as imagens foram cedidas pelo Teatro da Trindade/Inatel