A única constante no universo é a mudança.

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Clara Não tem o coração perto da boca

Clara Não nasceu e vive no Porto e há qualquer coisa na frontalidade do seu trabalho que faz match automático (olá Tinder) com as gentes do Norte. Como diria o Miguel Esteves Cardoso, a Clara gosta igualmente de palavras, palavrinhas e palavrões.

Apesar disso, a escolha de curso foi entre as artes e as ciências, acabando por ir parar a Artes Visuais e Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto. Foi ai que descobriu a Ilustração, juntado-lhe mais tarde a Escrita Criativa quando fez Erasmus em Roterdão. Terminado o curso, queria ser ilustradora, mas também queria ter estabilidade financeira (levante a mão quem se identifica com isto). Durante um ano tentou ter o melhor dos dois mundos: trabalhou como designer para várias empresas e nos tempos livres fazia “as suas coisas”. A cabeça estava feliz, mas o corpo estava a pagar o preço de nunca parar. Foi ai que tomou uma decisão.

“Despedi-me dos dois trabalhos que tinha na altura e decidi focar-me em mim. Tive uma reunião com o Director do Mestrado de Desenho e Técnicas de Impressão e comecei a frequentar esse curso. Foi assim que começou a viagem ao centro da escrita e da ilustração. Há algumas coisas por contar aqui no meio, mas já explico!”

Parece-nos o momento ideal para passar a palavra à Clara, a miúda que aprendeu a escrever com a mão esquerda para ficar mais perto do seu coração e com o coração na boca.

Uma das coisas mais interessantes no teu trabalho como ilustradora é o facto da escrita assumir um lugar de destaque. Para mim, a imagem e as palavras sempre estiveram muito ligadas, mas tenho vindo a perceber que não é uma coisa fácil de explicar à maioria das pessoas, essa ligação que a nós parece tão orgânica (para mim, pelo menos, é!). Explica-nos esta ideia de “criar ideias visualmente através da escrita”.

Sim, obrigada por perceberes, é exactamente como dizes! Até a escolha do nome “Clara Não” vem de não ter gostado de nenhuma das opções que tinha e do “Porque não?” e das brincadeiras que se podem fazer à volta disso: “Clara Não gosta de” ou “ Clara Não vai fazer uma exposição”. Talvez a melhor forma de explicar seja dizer que tudo começa com um pensamento. Claro que esse pensamento pode ser gerado por imagens, mas as ilustrações que crio começam com um pensamento e um pensamento são palavras mentais, ideias. Eu traduzo a ideia em palavras e as palavras em ilustração. Não são coisas coincidentes entre si, mas completam-se. Tudo começa com uma frase, um comentário, um aforismo, que faz com que as ideias sejam visualmente criadas pela escrita.

Porquê desenvolver o método de escrever com ambas as mãos? O que é que isso acrescenta ao teu trabalho?

Durante o Mestrado, foquei-me especialmente na importância da escrita no meu trabalho, reflectindo sobre a altura em que aprendi a escrever. Lembrei-me de não me lembrar de ter considerado ser esquerdina. Tendo em conta que como ao contrário, com o garfo na mão direita e a faca na esquerda, e que assoo o nariz com a mão esquerda, poderia fazer sentido ser esquerda a escrever. Para além disso, o meu coração, como o da maior parte das pessoas, é esquerdino. Decidi ver o que acontecia ao treinar a mão esquerda e liguei para a minha professora primária, que é minha prima afastada, a perguntar qual seria o método a adoptar. Era o de Jean Qui Rit. Então, usando esse método e um livro da Primeira Classe do Estado Novo, fiz o Salazar rebolar na cova, porque a mão com que ele proibia que se escrevesse estava agora a aprender a escrever com o livro dele. Todo o processo fez-me ficar muito mais desenvolvida do lado esquerdo do corpo e, de forma poética, mais perto do meu coração. Consigo escrever de todos os ângulos com as duas mãos, simultaneamente, inclusive palavras diferentes.

Quando vemos o teu Instagram, há a sensação de que o que publicas é quase sempre muito autobiográfico, ligado a situações pelas quais estás a passar, nomeadamente a nível amoroso. Essa exposição não te assusta?

Claro que a exposição ainda me assusta um bocadinho, até porque há coisas que não publico por serem mesmo muito pessoais, mas funciona como terapia para mim e, como tenho reparado, para as pessoas que passam pelas mesmas situações. Em adolescente, tinha muitos problemas em definir o que sentia. Eu sabia que “sentia sentimentos”, mas não sabia bem o que isso era. Além disso, punha sempre o peso em mim e exigia muito mais de mim do que dos outros. Era “demasiado” boa menina, mas só para os outros. Vivia assustada com a possibilidade de errar, de decidir por mim, tanto na escola como na vida pessoal. Tudo isto fazia com que fosse muito difícil falar de sentimentos e do que eu realmente queria. Depois de situações que levaram estas questões ao limite, não há outra palavra para isto: passei-me. Decidi lutar por mim e pelo que eu queria dizer e comecei a mostrar o que sentia. O resultado foi um pouco oito-oitenta: comecei a “mandar vir”, a escrever na rua e a fazer ilustrações autobiográficas. Eu não digo nada que seja mentira, apenas digo as coisas que muita gente pensa mas não diz ou tem medo de dizer. Cães, já tenho cinco!

Tu és ilustradora e foi por ai que te conhecemos, mas o teu trabalho também se estende a outros meios, certo? Quais? 

Contei acima que um dos meus problemas era ser ilustradora, mas conseguir ter estabilidade financeira. Contei também que me despedi dos trabalhos que tinha e voltei a estudar e a ilustrar activamente. Se pensarmos bem, onde fica aqui a estabilidade financeira? Em 2014, eu e uma amiga, a Carolina Grilo Santos, começamos a pôr música em festas da faculdade. Tocamos uma vez no Maus Hábitos e o produtor musical convidou-nos a tocar lá às quartas-feiras. Das quartas passamos para as quintas, sextas, e, finalmente, sábados. O que começou apenas por diversão agora é a festa que sempre quisemos para nos divertirmos e ainda ajuda nas despesas. Contamos também com o fotógrafo MKK e o performer João Viana. Para além deste meio, e sem nada a ver, parte do meu projecto de Mestrado envolveu fazer workshops com as crianças internadas no Hospital de São João. Contei-lhes histórias que escrevi e elas ilustraram-nas em conjunto. Prometo dar notícias em breve sobre isto!!

Explica-nos um pouco como são as tuas performances de escrita ao vivo. 

Tendo em conta o sítio e o que ando a sentir no período de tempo anterior à performance, escrevo um texto. Enquanto o escrevo, decido se sinto necessidade de o acompanhar com ilustrações e nos materiais mais apropriados. Tenho escolhido o carvão vegetal, porque me permite marcar o movimento pelo arrasto e decidir se quero censurar alguma parte ou continuar. No entanto, na última performance que fiz, escolhi tinta branca sobre tecido preto com a acção de uma luz negra, porque foi feita durante um evento nocturno. Após decidir estes detalhes, chego ao sítio, sinto o que estou a escrever e escrevo. Quando sinto o meu corpo a quebrar demasiadoa desequilibrar-se, a fazer-me expirar com muita força – paro. Pode parecer doloroso, mas faz-me sentir bem, faz-me pensar nas coisas e encontrar uma espécie de paz raivosa: o problema existe, mas eu percebo, aceito e resolvo.

 

(c) todas as imagens da autoria de Clara Não