A única constante no universo é a mudança.

Sans-serif

Aa

Serif

Aa

Font size

+ -

Line height

+ -
Light
Dark
Sepia

A dada altura no documentário ‘And Still I Rise’, Maya Angelou diz, no seu tom de voz solene, que é preciso saber quais são os nossos limites. Independentemente de todas as facilidades que nos possam ser dadas, de todo o dinheiro, do quanto possa parecer estúpido aos olhos dos outros perder esta ou aquela oportunidade, é importante saber aquilo que não queremos ou não gostamos. “Está na curva do cotovelo”, diz pousando o braço em cima da mesa, ao mesmo tempo que empina o nariz e o peito em sinal de “you shall not pass”.

Esta força de carácter é a espinha dorsal de ‘Life Doesn’t Frighten Me at All’. Editado pela primeira vez há 25 anos e reeditado em 2018 pela Abrams Books, o livro reúne um dos poemas mais conhecidos de Maya Angelou com ilustrações de Jean-Michel Basquiat, o principe imperfeito da arte do século XX.

 

This slideshow requires JavaScript.

Em vez de nos convencer que não devemos ter medo dos monstros e dos barulhos no escuro, Angelou diz que o melhor é falar directamente com eles e enfrentá-los. Coragem não é não ter medo, mas sim conseguir viver com ele e ganhar a batalha.

Talvez seja uma conclusão natural para a menina que foi violada aos 7 anos e que durante 5 anos não disse uma única palavra por achar que o ter contado à família o que lhe tinha acontecido levou à morte do homem que a magoou, assassinado a pontapé depois de ter passado apenas 1 dia e 1 noite na prisão. “A minha lógica de 7 anos disse-me que a minha voz tinha matado um homem”. Enquanto esteve em silêncio, leu quase todos os livros do mundo, decorou uma grande parte deles e aprendeu que as palavras não matam, mas que quando as atiras a alguém têm peso para fazer mossa. “Quando finalmente decidi falar, tinha muito para dizer”.

A menina sobreviveu até ser mulher e foi cozinheira, bailarina num clube nocturno, trabalhou na indústria do sexo; foi actriz, cantora, jornalista, escritora, poeta e uma das maiores activistas dos direitos civis na história recente dos Estados Unidos.

Grande parte de ‘Life Doesn’t Frighten Me at All’ deve ter sido ditado por essa menina de 7 anos que encontrou nas ilustrações de Basquiat uma cara grotesca, mas meia tosca, para o medo. Tal como o próprio, o trabalho de Basquiat parece estar sempre [violentamente] algures entre a infância e a idade adulta, entre o sonho (ou o pesadelo) e a realidade.

Depois de ter sido considerado uma criança prodígio, fugiu de casa aos 15 anos e viveu na rua sem dinheiro. Começou nos graffitis com a dupla SAMO, mas rapidamente passou a solo para as galerias, sempre com os olhos postos no reconhecimento e na fama. Embora o seu talento seja imenso e genuíno,  Basquiat insere-se perfeitamente na sociedade pop art que Warhol previu e ajudou a construir, onde tudo – mesmo esse talento – quer estar coberto de luzes e purpurinas.  Mas o brilho da fama e da Nova York dos anos 70 /80 não foi suficiente para ofuscar os demónios. Se calhar até os agigantou.

Tal como Angelou, Jean-Michel Basquiat sempre conviveu com os seus monstros, mas perdeu a batalha com as drogas aos 27 anos.

Qualquer bom livro para crianças é um livro que os adultos também querem ler. São histórias que crescem connosco. Em cada idade, com cada experiência, revela-se mais uma camada da cebola. Que a palavra “infantil” nunca meta medo ao nosso desejo de sermos “crescidos” e que seja sim uma companheira de luta e uma eterna utopia.

 

Shadows on the wall

Noises down the hall

Life doesn’t frighten me at all

(…)

I won’t cry

So they fly

I just smile

They go wild

Life doesn’t frighten me at all

 

(c) todas as imagens direitos reservados